<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661</id><updated>2011-08-16T01:12:59.267-07:00</updated><title type='text'>Proibida a entrada de pessoas estranhas</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>12</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-114470772580032298</id><published>2006-04-10T15:21:00.000-07:00</published><updated>2006-04-18T14:41:24.053-07:00</updated><title type='text'>A moça do vestido amarelo</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Parte 1: O vestido amarelo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Enquanto estudante de Jornalismo prestes a me formar, eu e mais dois amigos dedicamos todo o jornal do nosso Trabalho de Conclusão de Curso a um único assunto: a prostituição no município de Campos dos Goytacazes, no norte do Estado do Rio, cidade natal dos focas e seus diplomas. Tudo seria elaborado sob a égide do Jornalismo Narrativo, uma forma de jornalismo bastante difundida no exterior segundo a qual os fatos são discorridos como se fossem a mais pura literatura ficcional. Além disso, tem como característica essencial o envolvimento do repórter com os personagens, os fatos e os acontecimentos; mas, nunca pensei que pudesse chegar a tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia cinco pautas: o funcionamento das agências de prostituição; história da profissão mais antiga do mundo; vida e obra dos travestis; visita a um bordel; e a prostituição no meio universitário – as duas últimas sob minha incumbência. A primeira matéria estava concluída; a segunda está sendo redigida agora. Após alguns muitos contatos com os amigos dos amigos dos amigos – um deles, cafetão e também estudante de Jornalismo –, finalmente consegui uma entrevista. No dia seguinte, às 19h de uma terça-feira na lanchonete Pastel Gigante, próxima ao Parque Alzira Vargas, na Avenida 28 de Março, eu me encontraria com Lúcia. Ela estaria com um vestido amarelo. Não seria muito difícil encontrá-la, afinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às 18h53, chegando lá, não havia ninguém ainda. Peço um lanche, acendo um cigarro, abro um livro, e então já são quase 19h20 sem que ninguém parecido aparecesse. Nem termino de pensar isso e avisto na calçada uma linda mulher de 20 e poucos anos, trajando uma blusa amarela e uma saia estampada, cujas descrições eram bastante compatíveis com as que ela tinha me fornecido. Titubeio e, pouco depois, invade o recinto uma mulher com um vestido amarelo. As descrições, no entanto, já não são tão condizentes – além de ser muito feia, tadinha. Ossos do ofício, pensei, enquanto me levantava para começar a entrevista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Han? Lúcia? Não sou eu não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maldita realidade; sempre com essa mania de ser menos crível do que a ficção. Qual a probabilidade de encontrar alguém com uma porra de um vestido amarelo até o resto dos meus dias?! Às 19h30, saí da lanchonete bufando de raiva e munido apenas de um acervo de palavrões demasiadamente adequados a ela e sua profissão. Pensei em ligar, mas constatei já ser suficiente ter chegado ao cúmulo da rejeição ao levar bolo de uma vagabunda. Prestes a atravessar a rua, me deparo com uma linda garota de vestido amarelo, parada ao léu num pedaço de calçada distante do ponto de ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Desculpe incomodar, mas seu nome é Lúcia?&lt;br /&gt;- Felipe?&lt;br /&gt;- Isso mesmo.&lt;br /&gt;- Oi, desculpe! Cheguei atrasada e ainda sujei meu vestido ontem à noite e não deu tempo de lavar. Não tinha outro dessa cor...&lt;br /&gt;- Que nada, tudo bem... vamos ficar aqui mesmo?&lt;br /&gt;- Cê que sabe.&lt;br /&gt;- Vamos naquele bar ali na frente, o Orelhão. Aqui está com muito barulho.&lt;br /&gt;- Tudo bem, pode ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parte 2: Entre vistas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No caminho, trocamos trivialidades e contei a coincidência do vestido amarelo. Ela riu desenfreadamente. Uma risada gostosa, fluída do esôfago, alta sem ser vulgar. Tinha um sorriso de dentes perfeitos, emoldurados pela boca bem destacada da superfície da pele, branquíssima, em contraste com os cabelos negros ondulando sobre os ombros. Os olhos, tão escuros quanto, eram gigantescos globos levemente repuxados para os lados. Seu corpo era... conciso; tinha cerca de 1,70m, cujos relevos seriam facilmente destacados e causariam (ainda mais) furor por onde passasse caso usasse os trajes típicos do estereótipo meretriz. Mas não. Com um estilo mais próximo aos hippies, nunca desconfiaria a forma como aquela menina arrumava dinheiro. Paz e amor, garota esperta... é justamente esse o diferencial de seu produto. Já imagino muitos clientes oferecendo grandes montantes. Estava explicado o vestido emporcalhado ontem, plena segunda-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com as cervejas na mesa, ela começou contando o que já fui previamente informado: era mineira, de Belo Horizonte, tinha 22 anos e estudava Medicina. Gostava de cuidar das pessoas, afinal. Após esse prelúdio, o papo fluiu torrencialmente. Apesar de permitir transparecer sua natural espontaneidade, mostrava-se um pouco arredia e insegura com os fatos mais... hum, escusos de sua vida. Queria deixá-la à vontade. Voltamos então a conversar sobre coisas corriqueiras, sua cidade natal, lembranças alheias ao tema central de nosso encontro, músicas, filmes, livros, Campos – "uma cidade muito estranha, cujas duas maiores riquezas estão sepultadas: sua história e seu petróleo". Compartilhávamos opiniões semelhantes, afinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em "pouco tempo" o relógio já marcava quase 23h, e eu sabia muito pouca coisa que explicasse a escolha de sua "profissão". Vinha de uma família de classe média que, se não lhe dava tudo o que queria ou precisava, esforçava-se para nada deixar faltar. Começou na vida depois de chegar em Campos para morar na casa de uma tia, há três anos, quando passou no vestibular. O papo de sempre: assediada por um agente nos arredores da Faculdade de Medicina de Campos, com dificuldades financeiras, sucumbiu às sinceras falsas promessas para fazer algumas fotos – mesmo ciente das reais intenções. Aceitou, e elevou ao abstrato o número de experiências sexuais, então restrita a apenas três homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A morte do pai, pouco tempo antes de saber o resultado do vestibular, a deixou preocupada com o destino solitário da mãe. "Ela insistiu, me incentivou muito para que seguisse meu sonho de carreira. Meu pai era funcionário público, deixou numa condição boa, mas, não sei. Sempre que vou a BH tudo parece muito estranho. Um dia, apareci de surpresa e encontrei a casa cheia de poeira e minha mãe parada perto da janela, olhando o nada. Estava toda arredia. Deu uma desculpa esfarrapada e ficou por isso mesmo. Tenho medo de que esteja escondendo sua real situação financeira. Com a grana que consigo com os programas já ajudo a pagar as despesas, especialmente a mensalidade do curso, de quase R$ 2 mil. Ela e minha tia acham que consegui um bom estágio no Hospital de Guarus".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parte 3: Filho da pauta&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Enquanto contava as histórias, seu olhar se perdia no movimento da avenida ou na mesa ao lado, disfarçando enquanto narrava e brincava com uma tampinha de garrafa próxima ao copo. A diferença era nítida quando lembrava seus tempos de Belo Horizonte: colocava os dois cotovelos sobre a mesa e inclinava o corpo para a frente, estampando as covinhas das bochechas e fixando seu olhar nos meus – e deixando displicentemente à mostra parte dos seios. Certa vez ela percebeu. Timidamente, consertou o decote e disfarçou o olhar nos céus. E fiquei sem saber o que foi mais inusitado: a cena em si ou percebê-la envergonhada por tal situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notando que a bebida já lhe alterava, aproveitei para puxar assunto sobre sua clientela. Eram, em sua maioria, empresários de Campos e Macaé, município vizinho. Algumas vezes eles viajavam até Campos para vê-la; noutras, ela ia até o cliente, e na maioria dessas vezes atendia a alguns dos muitos gringos que vão até a cidade atrás do "ouro negro". Em média, 40% do seu faturamento vai para o cafetão – que ela teme até dizer o nome. "É alguém com muitos contatos", justificou. É ele quem corre atrás dos clientes de Lúcia, e é ele também o responsável pelos preços, que nunca são inferiores a R$ 100 e já chegaram a até R$ 500 com os gringos. "Mas é muito raro. Em Macaé já existe muita concorrência. A maioria dos programas concentra-se aqui. São cerca de 10 trabalhos por mês".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas foram, até então, as únicas frases que trocamos sobre o tema. O nível de empatia elevou a tal ponto que tornou-se cauteloso tanto para eu perguntar quanto para ela responder, e acabamos centrando a conversa em outros diversos assuntos. Ainda não tinha saciado minha curiosidade sobre a parte obscura de sua vida quando a meia-noite já se aproximava, e ela teve que ir embora. Repórter de merda, pensei, enquanto ela cortava meu pensamento pedindo o número do meu telefone e dizendo que poderíamos continuar a entrevista num outro dia. Me ofereci para pagar a conta, afinal, na condição de culpado pelo encontro, mas ela recusou. Quando a deixei em casa, a curiosidade de repórter se sobrepôs pela última vez:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sua tia não desconfia dos seus muitos "namorados"?&lt;br /&gt;- Eles nunca vêm até aqui. Marco sempre em algum lugar de Guarus, pois é mais distante e corro menos risco de algum conhecido me ver.&lt;br /&gt;- E namorado mesmo, já teve desde que você virou...&lt;br /&gt;- Prostituta. Não, desse dia em diante nunca mais tive namorado, não. Até quis, mas fiquei só nisso. Não tinha coragem de revelar e acabava terminando. Meus amigos mais íntimos até sabem e entendem, ou fingem entender. Acho que no fundo todo mundo sabe. Mas nunca fiquei com um cara que já soubesse o que faço. E dá para perceber quando sabem, pois o tratamento é totalmente diferente.&lt;br /&gt;- Mas você nunca ficou ofendida? Não se sente assim quando te chamam de prostituta?&lt;br /&gt;- Não gosto, mas o que posso dizer? Não tenho certeza também se todos sabem. É uma coisa bem planejada, afinal, discrição é a alma do negócio. Mesmo porque, há muitas "meninas de família" envolvidas nisso. Você não tem noção. Meninas que têm tudo, já transavam por prazer e resolveram cobrar.&lt;br /&gt;- E o cafetão? Ele não implica, não dificulta...?&lt;br /&gt;- Não. Ele diz que podemos ter liberdade na vida pessoal, mas que não devemos de forma alguma expor nosso trabalho para qualquer um, pois como disse, discrição é fundamental. Desvaloriza a nós mesmas. Ele, o cafetão, até nos protege. Uma vez, uns amigos dele lincharam o ex-namorado de uma de "suas" meninas, que batia nela. Ele não nos deixa faltar nada.&lt;br /&gt;- Mas e se vocês quiserem largar essa vida?&lt;br /&gt;- Dizem que podemos, mas não sei. O que me disseram é que, como regra para sair, devemos antes aliciar para o ramo uma ou mais meninas que eles considerem à altura de quem vão perder. Mas já soube de casos em que uma menina teve que pagar uma espécie de multa, altíssima, absurda.&lt;br /&gt;- E você, pensa em sair?&lt;br /&gt;- [...] Não sei. Quem sabe. [...] Olha, preciso ir, me ligue caso precise de mais alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então nos despedimos. Ela se virou e me deu um beijo escorregado entre a bochecha e o canto da boca. Foi o ponto final da pretensa matéria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Parte 4: O retorno do vestido amarelo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Precisei de mais algumas coisas e liguei para Lúcia algumas vezes. Saímos juntos, e em pouco tempo uma paixão mútua foi nos consumindo. A freqüência dos encontros foi se intensificando e os motivos se alternando. A primeira crise da relação não é difícil imaginar: a conciliação de nossos encontros com seu trabalho. Porém, o obstáculo foi levemente superado seguindo à risca o preceito da liberdade irrestrita. Em meio ao prazer havia outros desprazeres, porém: olhares de desdém e risos sutis que refletíamos com igual desprezo, apesar da inevitável fadiga que certas vezes provocavam. Mas o pior, para ela, era o fato de todos os meus amigos saberem da matéria. Seria um inevitável alvo de piadas maldosas, algo pelo qual até então não tinha passado: eu era seu relacionamento mais duradouro. Ela, por sua vez, evitava falar sobre seus programas. Resumia-se a não omitir e a ressaltar o quanto gostava de estarmos juntos, além de não deixar transparecer um certo incômodo quando sabia de um envolvimento meu com alguma outra garota. Mas ambos não permitíamos cobranças um ao outro. Ou pelo menos tentávamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretidos nesses percalços durante duas semanas, após tenebrosas discussões, ela decidiu que arrumaria uma forma de se desvencilhar do cafetão. Argumentei que já tinha passado da metade do curso, poderia depois arrumar um emprego e recuperar o dinheiro eventualmente "perdido" por sua mãe. E eu resolvi não mais escrever matéria alguma. O excesso de envolvimento e proximidade com o caso haviam me consumido por completo, ao contrário do que deveria acontecer. O envolvimento passou do campo profissional, desfilou pelo pessoal e já estava demasiadamente particular. Tinha decidido: não cumpriria mais essa pauta, e o assunto foi banido das reuniões do grupo do TCC. Inexplicavelmente, traçar perspectivas para superar os problemas agiu como um antídoto para nosso conturbado presente. Tudo seria resolvido; bastava apenas um pouco mais de tempo e paciência. Assumiríamos, enfim, a relação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algum tempo depois, num momento em que já digerira a idéia de me envolver com uma dissidente de tais atividades, e quando sequer me lembrava da motivação do nosso primeiro encontro, marcamos sair numa noite. Fui buscá-la em casa e, enquanto esperava, eis que ela surgiu com o vestido amarelo. Aquele vestido amarelo. Uma enxurrada de dúvidas, lembranças e suposições pairaram imediatamente em minha cabeça, e uma única frase de todos os nossos momentos juntos passou a latejar: "...sujei meu vestido ontem à noite...". Nunca mais a vi. Era como se tudo o que não tinha visto e evitado pensar tivesse sido exposto num milésimo de segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos falamos mais algumas vezes, e não me furtava de ligá-la à noite. E sempre a encontrava em casa. Sua profissão era um assunto banido, mas ela aproveitava todas as ocasiões para me incentivar a não desistir da matéria. Explicava então a intensidade do envolvimento que se passara, e que não saberia nem queria expor sua vida, nossa vida. "Faça com outra garota então", argumentou. Cogitei a possibilidade e, depois de algum tempo, percebi que contar a todos tudo o que se passara seria uma forma de expurgar meus demônios. Me impus duas condições: revelar pouco sobre nossas intimidades e comprometer o texto ao seu crivo. Quando a mostrei, ela nada editou. Apenas considerou: "Não gostei do tratamento inicial, pareceu meio pejorativo, mas tudo bem. Entendo". Expliquei que era minha visão inicial sobre o assunto. Agradecido, me virei para ir embora e revê-la sabe-se lá quando. Ela então me chamou e disse: "Sabe o vestido? Foi catchup".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-114470772580032298?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/114470772580032298/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=114470772580032298&amp;isPopup=true' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/114470772580032298'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/114470772580032298'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2006/04/moa-do-vestido-amarelo.html' title='A moça do vestido amarelo'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-114011989306693105</id><published>2006-02-16T11:55:00.000-08:00</published><updated>2006-02-20T17:21:58.846-08:00</updated><title type='text'>Imprensa que dá samba</title><content type='html'>Incumbido pelo contexto das circunstâncias a cobrir o carnaval jornalístico do bloco “Imprensa que eu gamo”, dos jornalistas do Rio, cheguei na rua Gago Coutinho no momento em que Nelson Rodrigues, o filho do homem, disposto a mostrar o carnaval como ele é, agarrou o microfone, discursou preliminares e começou o movimento com uma versão carnavalesca do hit “Bom Xi-Bom Xi Bom-Bom-Bom”, do grupo As Meninas, sucesso no carnaval de seis anos atrás. Era só o começo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, dois pequenos Trios Elétricos começaram a divulgação do samba enredo do bloco, cujo tema era a corrupção do governo federal sob o ponto de vista do Mercosul. Quer dizer: tinha gringo no samba, no caso, um folião argentino como um dos compositores de um refrão que dizia assim: “Imprensa que eu gamo/ me tira do sério/ no Mercadinho/ eu revelo esse mistério”. Mas, persuadido pelas cervejas e quase cacofonia do último verso, meninos, eu ouvi; e cantei, no trocadilho, “eu vou tocar no cemitério” durante todo o percurso, o que significa todo o quarteirão da rua Gago Coutinho até o Largo do Machado. Umas quatro horas. Os puxadores bravamente fizeram das marchinhas um samba enredo e do carnaval de rua uma escola de samba. Sem diploma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Não que a festa tenha sido ruim, afinal, Imprensa tem bons contatos. Enquanto a maioria dos blocos rebolou em busca de dinheiro e ameaçou não desfilar este ano, o bloco dos jornalistas do Rio conta com o patrocínio das multinacionais Fiat e Coca-cola, além da Vale do Rio Doce e cervejaria Cintra, que, por sua vez, pôs na avenida um abre-alas em forma de botequim e contratou freelancers para vender seu produto. Especula-se que cada apoio rendeu, no mínimo, R$ 15 mil. Rita Fernandes, presidente do Imprensa e da associação dos blocos (Sebastiana), disse para a mídia inteira ouvir que o mínimo para um bloco desfilar é R$ 20 mil. Segundo o Globo OnLine, o dinheiro extra do Imprensa será redirecionado para o Carnaval do próximo ano. Então tá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            No fim das contas, a única coisa que importava era se a Cintra teria o monopólio na avenida, o que, neste carnaval, não aconteceu. E, entre enredos de corrupção, ficaram os protestos: cartazes contra os governadores do Estado continham dizeres impublicáveis, mas que no carnaval ficaram até de bom tom. Arthur Xexéo seguiu a onda num modelito Rosinha fazendo vodu num boneco de brinquedo. Mais à frente, Jamari França se esbaldava, como bom folião, furando o ar com os dedinhos apontados para o céu. Joaquim Ferreira dos Santos também estava lá, tomando Nescau ao lado de Luma de Oliveira. Era a festa do jornalismo tupiniquim. O tempo só ameaçou fechar quando Chico Caruso, num arroubo de teor egoólico, ameaçou o mundo com charges fundamentalistas. Alfredo Ribeiro olhou de lado e disse: “ô, raça!”, enquanto saía e não via Alberto Dines e a turma do Centro de Mídia Independente, em protesto, urinando nas frestas de uma banca de jornal. E assim Diogo Mainardi, vendo tudo parcialmente do alto de um edifício, perdeu a maior chance de sua carreira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Não, nada disso aconteceu. Ou quase. É verdade, por exemplo, que o Imprensa passou em frente à Igreja Matriz Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, na mesma hora em que acontecia um casamento, obrigando o padre a fechar as portas da casa do Senhor para os pecadores que, coitados, só queriam levar o samba pra mãe-de-santo rezar. Assessores de imprensa mais radicais ameaçaram defender Cristo, mas sem ibope acabaram desistindo. O plantão ia chegando ao fim, e o público se comportou de acordo com as recomendações: limpou as latinhas antes de beber, vestiu as cores da moda e os mais informados até rejeitaram copos plásticos com medo de câncer de estômago, conforme leram na última edição de uma dessas revistas de domingo pautadas em ciência espontânea. No fim, ainda teve gente reclamando do tumulto e defendo que o Imprensa censurasse as datas dos desfiles. Pode ser. É só uma questão de combinar o espaço com os patrocinadores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-114011989306693105?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/114011989306693105/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=114011989306693105&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/114011989306693105'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/114011989306693105'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2006/02/imprensa-que-d-samba.html' title='Imprensa que dá samba'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-112838032366520833</id><published>2005-10-03T15:45:00.000-07:00</published><updated>2005-10-11T20:41:04.960-07:00</updated><title type='text'>Su casa, mi casa</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Como a população carente luta por moradia e foge do rápido e gradual processo de favelização do Rio&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na madrugada do dia 26 de abril deste ano, três sem-tetos dormiam sob a marquise do prédio do INSS, no centro do Rio, quando um grupo de cerca de 300 militantes, estudantes, trabalhadores e sem-tetos passou por eles e arrombou a porta do edifício, dando início à Ocupação Zumbi dos Palmares. Os moradores de rua continuam lá, mas agora têm como vizinhos cerca de 120 famílias, muitas com crianças, cuja principal luta é a conquista definitiva de uma residência longe das ruas e do crescente processo de favelização do Rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pescador paraense Severino Ramos, 25, morador das calçadas do edifício há cinco anos, foi uma das pessoas a ter sua "casa" invadida no dia da ocupação do prédio há 20 anos abandonado. Ao seu lado mora a também paraense Maria do Socorro Miranda, 47 anos, 15 deles sob a marquise do mesmo prédio. Cinco meses depois da ocupação, ela entrou em contato com os novos moradores do imóvel: queria reclamar de entulhos arremessados do alto do edifício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Já tentei morar ali, mas dizem que não tem mais lugar", afirmam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São 20 quartos distribuídos em sete andares, alguns transformados em salas de reunião, de estudos e até oficina de serigrafia, cujas camisas com o logotipo da Zumbi já foram para Alemanha e Suíça. No oitavo andar, os moradores tentam retomar obras paradas na época do INSS e construir outros aposentos. Segundo eles, novos moradores devem atender a dois requisitos: participação nas reuniões e concordância com o regimento, que inclui itens como proibição de drogas no interior do edifício e trabalho pela manutenção do local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar da lotação, muitos não resistem às incertezas ou obrigações do regimento. Assim, o último a entrar para a Zumbi foi Josilésio "Ferrugem" de Almeida, de 42 anos. Ele trabalhava numa Kombi-lanchonete, em Niterói, até que a prefeitura acirrou a repressão aos ambulantes. Veio para o Rio e comprou um "pedaço de chão" por R$ 500 no centro da cidade. Depois de cercar o local e pôr uma lona como teto, não pôde mais pagar pelo espaço ao ter a Kombi rebocada. Nunca tentou resgata-la, sabendo que não teria condições de pagar a documentação atrasada. Dormiu por alguns meses com a mulher e mais três filhos no Campo de Santanna, quando então conheceu a Zumbi através de João de Souza Barbosa, 44 anos, militante desde os 16.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na luta por moradia no Brasil há até estrangeiros. O peruano José Leonardo (nome fictício) busca asilo político no país depois de sofrer ameaças de morte ao denunciar o governo de Lima, capital do Peru. De 1983 a 1995 ele foi funcionário da Secretaria de Defesa dos Direitos Humanos, até que denunciou ao jornal "La Razon" esquemas de corrupção, violação de direitos humanos e morte de 60 mil camponeses. Trabalhou como motorista até se exilar no Brasil, há 2 anos, ao lado da mulher e três filhos. Depois de morar de favor, encontrou apoio numa das várias ocupações do Estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"No Brasil encontrei muita solidariedade. Nem penso mais em sair", diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O amanhã&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte à ocupação, o INSS entrou com um processo contra a Zumbi, avaliado pela juíza Salete Maria Polita Maccaloz, da 7ª Vara Federal. Um mês depois, a juíza visitou pessoalmente o prédio e constatou um estado de degradação não condizente com o argumento do INSS de que o local recebia manutenção periódica. Além disso, considerando a situação social dos ocupantes, determinou que antes da remoção deverão ser consultados o Conselho Tutelar, em vista do grande número de crianças, o Ministério Público, para garantir os direitos humanos, e a prefeitura para definir um destino às famílias. Atualmente, a conta de água e luz é dividida entre governo municipal, estadual e federal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ocupantes exaltam o artigo 5º, inciso XXIII da Constituição, segundo o qual toda propriedade pública deve ter função social, e o artigo 6º que estabelece a moradia como um direito social. Daí o lema pendurado numa faixa em frente ao prédio: "Se morar é um direito, ocupar é um dever". Ressaltam ainda a promessa de campanha de Lula de que transformaria prédios públicos desativados, principalmente nas áreas centrais degradadas, em moradia para a população mais pobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até o momento, há um convênio entre o Ministério das Cidades e a Previdência Social prevendo a transformação de 1.073 imóveis abandonados do INSS em residências populares. O Rio seria um dos maiores beneficiados, com 18 imóveis (mais de três mil residências) sendo avaliados pela Caixa, dentre os quais, o prédio da Zumbi. A Prefeitura do Rio garantiu parceria no convênio, incluindo os edifícios no Programa de Reabilitação da Área Urbana Central, cujo objetivo é aumentar o número de residências no centro e na zona portuária e desenvolver as regiões social e economicamente. O INSS, por sua vez, não desistiu do imóvel e prometeu aos ocupantes novas moradias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Rio são várias as ocupações urbanas, de Vila Isabel à Baixada, mas, ao lado da Zumbi, a mais proeminente é a Chiquinha Gonzaga, cujo processo judicial já está estabilizado, restando apenas algumas pendências burocráticas. Já na Zumbi, até agora, tudo acabou em samba. Um samba do músico Juvenal Cândido Silva, de 51 anos. "Estamos aqui na Ocupação. Zumbi dos Palmares, é a nossa solução. Tudo organizado com a ajuda do povão. Zumbi dos Palmares é a nossa solução", canta. Uma solução que Juvenal teve de encontrar rapidamente depois que uma bala perdida passou raspando na cabeça do filho, de um ano, e explodiu a televisão de seu barraco no morro da Mangueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O hoje&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Na ocasião em que Severino e Maria do Socorro fizeram suas reclamações, os ocupantes se preparavam para mais uma assembléia, como fazem todas as segundas, quartas e sextas para discutir problemas do prédio. Mas as reclamações dos atuais sem-tetos não entraram na pauta. Nas últimas reuniões, o debate tem sido em torno de uma punição para reprimir consumo de bebidas alcoólicas no interior do edifício e roubo de objetos, uma vez que a maioria dos moradores não fecha a porta de seus apartamentos. Numa dessas discussões, um ocupante já foi expulso por roubar uma bermuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Zumbi se mantém sob o princípio da autogerência: nos dias de reunião, todo morador tem autoridade para começar a assembléia. Assim, fazem questão de ressaltar que não há líder; todas as decisões são tomadas pelo "Coletivo", que é como chamam as reuniões com os moradores e militantes de apoio. O Coletivo define as comissões encarregadas por diversos setores, como segurança, cadastro, elétrica, hidráulica e finanças. Esta última passou por um grave problema: sobrou dinheiro. Uma confusão com os carnês consumiu horas de reunião, ora embravecidas, ora sem perder a ternura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A maioria nunca foi ligada à política. Mais do que lutar por uma moradia, os moradores passam por um processo de formação de consciência política", diz João.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sindicatos, diretórios acadêmicos e estudantes secundaristas contribuem distribuindo roupa, comida e estudo para as crianças. Outro ponto de pauta debatido atualmente é a Semana da Consciência Negra, planejada para novembro, com exposição de fotos e vídeos do Movimento de Ocupação e da Rede de Luta Contra a Violência, cuja renda será revertida para a Zumbi. Já a renda familiar no prédio varia de R$ 100 a R$ 1000. Os moradores, a maioria camelôs, contribuem com R$ 20 mensais, mas casos de inadimplência ainda são tratados sem impetuosidade. O dinheiro serve para resolver problemas de infiltração e instalação elétrica, mas as prioridades são duas: aquisição de uma bomba para levar água aos apartamentos e reconstrução de estruturas de sustentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João conta que, certa vez, faltou R$ 200 das finanças de uma das Ocupações que já participou. O responsável foi descoberto e, em assembléia, decidiram pela sua expulsão. Enraivecido, denunciou que um dos moradores já foi gerente de boca de fumo. Era verdade, mas a história tinha outros meandros: o ex-traficante teria abandonado o morro ao ver o filho, ao lado de amigos, brincando com arma na mão. Sobreviveu catando papelão e dormindo nas ruas com a família. "Conversamos a sós, e ele me contou que tentava dar uma vida diferente ao filho", lembra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O ontem&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O embrião da Zumbi dos Palmares nasceu a partir da Chiquinha Gonzaga, por sua vez, criada por militantes, camelôs e sem-tetos que articularam a ocupação daquele antigo hotel vendido ao Incra onde há 21 anos não existia nada. Ou quase. "Era residência de urubus. Sério, pessoas dormiam nas ruas enquanto um casal de urubus tinha um ninho no último andar", conta João. Quando a ocupação se estabilizou, a notícia se espalhou e um grande número de pessoas apareceu pedindo moradia, dentre os quais Helena (nome fictício), moradora de um morro no centro, que tentava fugir da violência do marido. Com a lotação da Chiquinha, só havia uma solução: ocupar outro prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram quatro meses de reuniões à noite em praças e sindicatos para decidir a melhor estratégia. Uma comissão de cinco pessoas ficou encarregada de arrombar a porta principal do prédio, enquanto quase 300 se "esconderiam" pelas redondezas. Eram 2h da manhã quando o plano foi posto em ação. Por longos minutos, a comissão encarregada tentou arrombar a porta, mas acabaram despertando a suspeita de policiais federais, cuja sede fica no quarteirão ao lado. Em busca de outros prédios, o mutirão foi para a Cinelândia e depois para a Lapa, sempre acompanhados por um grande número de viaturas. Uma assembléia feita no Largo da Lapa decidiu que a batalha tinha de ser abortada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a guerra continuava. Helena, de malas nas mãos e sem poder voltar para casa, morou e se alimentou de favor com os novos companheiros da Chiquinha enquanto o outro plano levou nove meses para ser concebido. Na madrugada de uma terça-feira, a comissão de arrombamento saiu da Chiquinha Gonzaga. Em seguida, a cada minuto saía um grupo de 20 ocupantes, formando um movimento de quase 300 que, juntos, arrombaram os fundos do antigo prédio do INSS. Fora militantes e estudantes apoiando a ação, eram cerca de 100 famílias que, assim como Helena, tinham agora como endereço a Avenida Venezuela 53. Endereço onde, tal como ocorreu na Chiquinha Gonzaga, pessoas como Severino e Maria do Socorro às vezes passam à procura de um lugar melhor para viver.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-112838032366520833?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/112838032366520833/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=112838032366520833&amp;isPopup=true' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/112838032366520833'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/112838032366520833'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2005/10/su-casa-mi-casa.html' title='Su casa, mi casa'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-112740874626046943</id><published>2005-09-22T10:02:00.000-07:00</published><updated>2005-09-22T10:05:46.270-07:00</updated><title type='text'>Táxi para a Estação Lunar</title><content type='html'>&lt;p&gt;"Estamos em outro mundo: o homem desceu na Lua". Assim o Jornal da Tarde, de São Paulo, noticiou a chegada da Apolo 11 ao satélite da Terra. Vi na SuperInteressante. Era uma entrevista com um dos 12 tripulantes, o Edwin "Buzz" Aldrin – cujo batismo do "sobrenome" deve-se a amigos de infância. A matéria não diz qual é sua hierarquia abaixo da de Neil Armstrong e eu não estou a fim de perguntar ao Google, mas há uma superinteressante poeira de informação encurralada no canto da página: "Foi o primeiro homem a urinar na Lua". Era o animal demarcando território numa terra sem lei.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O grande salto da humanidade veio cheio de frases de efeito, mas, definitivamente, nada substituiria o ato de Buzz. Como é típico dos nortamericanos, fincaram bandeiras dizendo "viemos em paz por toda a humanidade", o mesmo slogan costumeiramente utilizado em incursões petrolíferas mundo afora – e que, na ocasião, representava as primeiras secreções do coito interrompido junto à União Soviética. Mas, enquanto Neil entrou para a História filosofando sobre o espaço entre o próprio umbigo o dedão do pé, Buzz, ao pisar em solo lunar, disse apenas: "Magnífico, magnífico. Bela desolação". Foi assim que descreveu o encontro com aquele pequeno bibelô pendurado no céu que por tanto tempo instigou poetas, cientistas e toda estirpe de homo sapiens. Era magnífico, explicou ele, o tal graaande salto, mas não deixava de ser um cenário de "desolação" aquela "pura superfície, sem nenhum tipo de vida".&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Um dos dados mais curiosos da entrevista é sobre as crises emocionais por que muitos astronautas passaram ao retornar ao planeta. Para Buzz, a explicação é simples: muito mais desafiador do que ir até a Lua é ter de lidar com o restante da humanidade, no caso dele, especialmente com o mundo vazio das celebridades. Além das angústias pessoais de todo ser humano, Buzz teria uma herança familiar de tendência à depressão e alcoolismo. Mas, ao invés de passar a vida saltando de bar em bar, enfiou a cara nos trabalhos até atingir o ápice de sua carreira. E faz isso até hoje: passa os dias se dedicando à fundação ShareSpace, cujo objetivo é levar ao espaço o maior número de pessoas. Recentemente, a Nasa divulgou a retomada da viagem à Lua, estacionada desde 1972. Além disso, futurólogos prevêem em cem anos um elevador que levará as pessoas até o espaço. Já têm até os preços, os danados: US$ 200. Inflação a conferir.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O irônico na história é a constatação de certa "desolação" com a Lua, em contraponto ao clamor com a conquista em si. Após tantos esforços monetários e físicos, reflexões e fantasias, o que mais causou comoção quando o homem chegou à Lua foi olhar para trás e contemplar a Terra. E mais irônico ainda é que, enquanto Buzz chegava até a Lua fugindo da depressão e da boemia, milhões de sua raça se entorpeciam nas esquinas das cidades, afogando suas angústias e a difícil tarefa de lidar com o ser humano. No fim das contas, constatamos que o homem foi até a Lua para descobrir o que qualquer poeta já havia traduzido nos guardanapos da vida.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mas tenho fé no grande salto. Um dia, a turma vai dar um pulinho ali na Lua para comemorar o aniversário. Pegarão um táxi – ou um elevador – rumo à Estação Lunar, um botequim, daqueles pés-sujos tradicionais. No caminho, o piloto lhes contará suas mais tresloucadas aventuras, entre um gole e outro após ultrapassarem os limites legais de 100 km de altitude. Chegando lá, encontrarão ali, no lado negro da Lua, um traficante de gravidade e darão um tapa, só pra dichavar. Farão um lual, mijarão na estátua de Buzz e beberão todas até flutuar. Não posso nem imaginar as belíssimas canções em louvor ao planetinha. Deve ser o sonho de qualquer aluado: ficar lá, no mundo da lua, olhando estrelas sem pôr os pés no chão.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;A mim, que não sou poeta e não consigo ver sob a sola dos pés, resta aguardar a fila do elevador – e a descoberta do elixir da mocidade. Vai ver, de longe, é mesmo mais interessante.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-112740874626046943?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/112740874626046943/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=112740874626046943&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/112740874626046943'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/112740874626046943'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2005/09/txi-para-estao-lunar.html' title='Táxi para a Estação Lunar'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-111724379223079158</id><published>2005-05-27T18:05:00.000-07:00</published><updated>2005-05-27T18:32:57.516-07:00</updated><title type='text'>Fora do ar</title><content type='html'>[shshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshs]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado no sofá, com a TV ligada num canal fora do ar, ele olhava repetidas vezes para aquela misteriosa carta.&lt;br /&gt;“Fui ao Sex Shop e lembrei de você”&lt;br /&gt;Nada mais havia. Num papel, quase do tamanho do envelope, constava apenas a intrigante frase e, o pior, seguida pelo seu nome no cabeçalho. Tentou frear os pensamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[shshshshshshshshshshshshshshshshshshshsh]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Largou a carta em cima da TV e acendeu um cigarro. De pé, observou a fumaça sair espessa, com pressa, indo de encontro aos insetos em volta da lâmpada. Assim ficou noutras três tragadas, importunando besouros enquanto conjeturava sobre aquele estranho bilhete. Seria uma pueril brincadeira de algum vizinho? Quem sabe uma ex-namorada, saudosa, buscando conforto nos sufocantes quarenta e vários anos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[shshshshshshshshshshsh]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhou até a cozinha em busca de um copo d’água. Sentiu o líquido descer por cada poro, gelado, arrefecendo o coração. Observou as formigas passarem corredias no azulejo, em fila, cada uma carregando um pedaço de pão. Voltou à sala. A carta o encarava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[shshsh]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não podia ser nenhum vizinho. Nas fronteiras de sua rotina, sempre cercou sua intimidade com poderosas trincheiras. Pode-se dizer, no máximo, que tinha qualquer tipo de familiaridade com o farmacêutico, o português da padaria ou o dono da locadora, em fugazes conversas sobre a mudança do tempo ou o novo imposto do governo. Deitou-se, encarou a TV; já fazia meia hora que saíra do ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[shshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshsh]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretendo-se com as lembranças, imaginou suas antigas mulheres, onde estariam, como estaria se estivesse com alguma delas. Começou pela primeira, Enila. Por ela, logo na estréia, já abdicara de tudo: amigos, farras... congelou a vida social borbulhante da juventude. Trocou tudo por ardentes momentos a sós; muitas e muitas noites em acampamentos inspiraram dois dedicados pesquisadores das posições sexuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Maíra, a Louca?! Não pôde conter o riso ao lembrar-se dela. A época da descoberta do sexo rotineiro em seus mais minuciosos detalhes. Engenhocas, alquimias. Fantasias à beira do rio, gemidos sussurrados, quase enrustidos; orgasmos explícitos, calados por quedas d’água. Tão louca, a Maíra. A mata jamais foi uma cortina para suas fantasias. E aquela vez, em pleno cinema?! Nunca um espectador importou-se tanto em catar as pipocas no chão... Ah, Maíra, Maíra... que dom, que magia ela tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última mulher que se aninhou em seus braços, havia tempo, é verdade, mas a angústia latente sugeria uma época estranhamente recente. Nunca entendeu por que Eliane jamais o procurou. Pudica, talvez tenha achado excêntricos demais os brinquedinhos, trejeitos e técnicas apresentadas, como fazia a cada novo relacionamento. Balbuciou impropérios, balançou a cabeça; tentava afastar os pensamentos. Evitava lembrar suas felicidades extraviadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em qual momento abandonara o gosto pela vida?, nem ele sabia. E, na verdade, sequer se importava em descobrir. Para quê?&lt;br /&gt;Uma lágrima desceu até seu braço e escorreu pelo pulso, cortando as rugas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[shshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshs&lt;br /&gt;hshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshshs]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente a TV voltou. Passava um programa de auditório no qual uma celebridade instantânea narrava seu intenso dia-a-dia. Foi sacudido de volta à realidade. Nesse momento, um vento frio, perdido, invadiu a janela e arremessou a carta aos seus pés. Ele a encarou; flexionou o canto da boca. Sem cerimônias, amassou e jogou a carta pela janela, amontoando-a junto aos outros panfletos da pré-divulgação daquele nova loja que se instalava no bairro. Depois deixou a TV num canal fora do ar, aumentou o volume e ficou lá, estendido no sofá, hipnotizado pelos pontinhos branco e preto se revezando na tela, compondo as imagens que passavam em sua mente. Sentia nitidamente as perninhas de insetos e formigas caminhando em seu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruzou os pés e pôs as mãos na nuca. Embaralhando o tímpano, ouviu o chiado da TV se converter no som de uma cachoeira. Assistia suas melhores lembranças, abstraído, olhos suados, cansados de correr atrás do passado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-111724379223079158?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/111724379223079158/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=111724379223079158&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111724379223079158'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111724379223079158'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2005/05/fora-do-ar.html' title='Fora do ar'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-111644794121338501</id><published>2005-05-18T13:22:00.000-07:00</published><updated>2005-05-18T13:25:41.220-07:00</updated><title type='text'>O chá nosso de cada dia dai-me hoje</title><content type='html'>&lt;em&gt;Como acontece o ritual do Santo Daime, a Doutrina que prega o uso de um chá para entrar em contato com a divindade&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Ao pôr do sol, muitos carros param em frente a uma casa comum na praia de Itaipuaçú, há cerca de uma hora do Rio. Homens e mulheres uniformizados, vestindo gravatas e vestimentas de cor azul-marinho, cumprimentam-se efusivamente enquanto se dirigem ao quintal, nos fundos do domicílio, e sentam-se em simples cadeiras munidos de violões e instrumentos de percussão. Tendo ao fundo o som de crianças brincando, o grupo calmamente entoa algumas canções, pouco a pouco se concentrando ao redor de uma mesa igualmente simples na qual está um crucifixo duplo – e onde, ao invés do corpo de Cristo, está a representação de um cipó, um dos elementos que compõem o Santo Daime.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A música – chamada de “hino”, espécie de mantra cujos versos são repetidos a cada duas vezes - é a senha para os membros começarem a beber o chá sagrado, sua “hóstia líquida” repleta de mitos e mistérios, relatos de alucinações e realidades paralelas. Homens pela direita, mulheres pela esquerda; sem nunca se misturarem, todos se dirigem a um “altar” sem a mínima pomposidade em busca de uma dose – um copo americano cheio – do líquido marrom com gosto de azeitona e terra. Sim, todos os convidados têm que ingerir ao menos uma dose, como ritual de iniciação, conforme explicou Roberto Alexandrino, dono da casa/igreja e membro no comando daquele ponto de Daime, um dos “fardados”, como chamam, única hierarquia existente na Doutrina que, se aceita doações como qualquer religião, tem como peculiaridade não buscar agregar fiéis.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Princípios do Chá&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Enquanto o mundo briga pela intitulação de porta-voz de Deus, a Doutrina, intrinsecamente brasileira, reúne ensinamentos das mais diversas religiões: católica, candomblé, espiritismo, budismo. Os hinos, cujas letras cantadas aos ritmos de marcha, valsa e mazurca contêm princípios de amor, caridade e fraternidade, são mantidos em língua portuguesa nos diversos lugares do mundo onde a Doutrina já está propagada, com cerimônias acontecendo a cada 15 dias e nas datas consideradas santas – segundo o calendário cristão. “Muitos vêm aqui querendo conhecer o Santo Daime, mas acabam conhecendo a si mesmos”, apressou-se Roberto aos convidados, no caso, o repórter e os cinco estudantes de cinema que filmavam um documentário sobre a Doutrina.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            O chá seria produzido através de duas plantas nativas da floresta Amazônica: a Ayahuasca e o cipó Jagube, que possibilitariam uma expansão da consciência responsável pela experiência de contato com a divindade através do auto-conhecimento. Segundo seus membros, é necessário abster-se de bebidas alcoólicas, sexo e carne três dias antes de sua ingestão - e o uso do chá fora da Igreja é totalmente não-recomendável. O Daime teria sido ensinado na década de 20 diretamente por Nossa Senhora da Conceição ao seringueiro Irineu Serra, o Mestre Irineu, após ingerir a bebida na região de Brasiléia, no Acre. O chá, por sua vez, seria uma receita (modificada) dos povos Incas, fugidos para a Amazônia após a invasão espanhola. E o nome proveniente do verbo “dar”, citado nas orações de pedidos a Deus (“dai-me paz”, “dai-me amor”, por exemplo).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            A Ayahuasca, ou “corda dos espíritos”, em quíchua, possui substâncias controversas mundo afora. Enquanto alguns definem suas propriedades como alucinógenas, os daimistas preferem o termo enteógeno – do grego “theos” (Deus) e “gen” (que gera ou desperta). E se religiosos brasileiros são presos no exterior acusados de tráfico internacional - nos Estados Unidos a Suprema Corte discute a legalização -, no Brasil o uso do chá é avalizado pela Constituição Federal e pelo Conselho Nacional de Drogas. Atitude em conformidade com parecer da ONU, favorável ao consumo da folha de Ayahuasca, que contém a substância dimetiltriptamina (DMT), proibida em diversos países.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;           &lt;strong&gt; Chá de beber&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;            Dez minutos após ingerir a quantidade devida, porém, julgando-me excessivamente sóbrio, desejei outra dose. Afinal, não é raro crianças tomarem doses controladas desde a barriga da mãe. E eis que, de repente, vejo luzes estranhas brilhando no céu. Olho ao redor: estão todos ensimesmados, meditando. Obviamente, sequer cogitei atrapalhar o contato alheio; embalei na minha própria visão, crendo numa manifestação divina proporcionada pelo maravilhoso chá de Santo Daime. Só mais tarde dei-me conta: era um balão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Além de inúmeros desses artefatos, o céu de Itaipuaçú contém também estradas aéreas; passageiros apressados sequer imaginando que abaixo de seus pés um grupo de pessoas estaria absorto numa alta viagem paradoxalmente tão intensa quanto tranqüila. Assim desenrola-se o ritual: momentos infindáveis de meditação, intercalados pela voz grave do fardado. Silêncio; todos de postura ereta concentrados no próprio umbigo. Até que Roberto declama alguns versos, os violonistas ferem o mais sutil dos acordes, fazendo os corpos se moverem, emergirem de seu confinamento pessoal e, gradativamente, degrau por degrau, os percussionistas pulsam mais um hino e todos começam a cantar num coro sussurrado e tranqüilo. Assim, cerca de 30 pessoas atingem de seis a até 12 horas de culto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Após algum tempo, resolvo levantar um pouco e ir até a varanda, onde as crianças – filhos dos membros da Doutrina – brincavam hiperbólicas, sem a menor preocupação. Nada mais senti além de uma sonolência e um grande estado de tranqüilidade e auto-confiança delineando os pensamentos. Aos poucos o relaxamento foi consumindo de tal forma que a única vontade era deitar no chão. E assim fiz durante um certo tempo, até dar-me conta de que todos estavam exatamente naquele estado de absoluta imersão individual – e de que deitar-se, na própria grama até, era uma atitude bastante comum ao ingerirem o Daime.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;            Os efeitos foram semelhantes entre os futuros cineastas que tomaram a mesma dose. Segundo Roberto, cada um tem uma reação diferente; alguns enjoam, vomitam e têm até diarréia, mas esse estado reflexivo costuma ser o mais comum na primeira vez. Só a continuidade traria efeitos mais intensos. “Há casos muito isolados de pessoas que enlouquecem, se suicidam, mas obviamente têm diversos outros fatores, problemas psicológicos até, que o indivíduo já traz consigo para chegar a tal ponto”, contou. Para tirar a dúvida, tentei mais uma dose.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os hinos embalam os pensamentos até que algo inusitado desvia a atenção: ao lado, um homem começa a chorar, soluçando; outro, começa a tremer, como quem tem uma convulsão ou incorpora um espírito. Os demais continuam meditativos, como se nada estivesse acontecendo – alguns até se retiraram para um cômodo especial, segundo Roberto, “para usar o dom da mediunidade. Há incorporações na Doutrina, mas é tudo muito reservado. Aquele homem tremendo estava apenas se limpando de influências negativas”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Já na volta para casa, relaxado do ato de reportar e ainda sentindo o corpo levemente abatido, permito-me então fechar os olhos. Aos poucos, surgem visões de rostos desconhecidos, bastante nítidos e diversos, compondo um mosaico em preto e branco das mais variadas faces – experiência que, por exemplo, não conseguiria repetir agora redigindo esta reportagem. Em seguida adormeci; e não pude saber se aquelas alucinações fazem parte da realidade ou se foi tudo apenas a ficção de um sonho.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-111644794121338501?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/111644794121338501/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=111644794121338501&amp;isPopup=true' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111644794121338501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111644794121338501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2005/05/o-ch-nosso-de-cada-dia-dai-me-hoje.html' title='O chá nosso de cada dia dai-me hoje'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-111593865425903080</id><published>2005-05-12T15:37:00.000-07:00</published><updated>2005-05-12T15:58:22.216-07:00</updated><title type='text'>A esquina da saudade</title><content type='html'>&lt;em&gt;João Paulo Arruda&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu do cemitério a passos lentos, como quem olha distraidamente a rua. Por falta de compromisso, andou pelas ruas sem objetivo, observando as fachadas aqui, ali. Pequenas lembranças agora sem testemunhas, que vinham à mente na forma do café tomado em fofocas, políticas ou não, do cigarro aceso sem pressa, curtindo uma tarde de sexta-feira que morria placidamente, à espera da semana seguinte. Por ter saído de um lugar de morte, lembrou do enterro do pai. Poucas vezes tinha tomado café com o pai no Centro. Olhando para trás, as oportunidades perdidas pareceram tantas. Naquele dia, do enterro, tudo isso lhe passou pela cabeça. Enquanto contemplava o pai pelos últimos minutos, últimos, últimos, o desespero e a impossibilidade de voltar o relógio e reviver o não vivido golpeavam seu peito com uma dor jamais experimentada. Uma dor sádica, que não mataria, ao contrário, lhe dava a mórbida confirmação de que o manteria vivo. Para sentir. Enquanto caminhava, lembrou que trancara as dores bem no fundo. Em algum lugar escuro, de onde ela nunca saía por inteiro, para não matar o hospedeiro. Onde estaria essa dor agora? Ele só percebia uma bruma leve, a sensação de que ela existia, mas não viria por inteiro para visitá-lo agora, a despeito da porta aberta às lembranças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensar no pai, na morte do pai, o fez caminhar para a antiga rua de sua casa. Parou na esquina e ficou alguns minutos olhando os ônibus que passavam. Sorriu ao se dar conta de que, mesmo agora, adulto e usando disfarce de adulto, continuava não vendo nenhum grande pecado em jogar ovos nos ônibus que passavam. Ulisses era o que corria mais rápido. “Pulmão de cavalo!”, gritava a molecada quando ele avermelhava as faces de crente e disparava mais rápido que campeão do Grande Prêmio Brasil. Ulisses avisava da chegada do ônibus e quase sempre era o primeiro a atingir a esquininha, como era conhecido nosso ponto de encontro, depois de já ter jogado seu ovo. Os outros quatro ou cinco vinham pouco atrás. Adrenalina que se juntava à satisfação nas ocasiões em que os ovos ultrapassaram a janela e acertavam os passageiros. Nem quando se tornou petista considerava a atitude condenável. Sujava os outros, o proletariado trabalhador, sem dúvida. Mas nunca matou ninguém. E foi sensacional no dia em que o ônibus desviou sua rota, tentou caçar a turma e parou na esquininha. Todos tinham devidamente planejada sua rota de fuga. Não tinham passado parte de sua infância vendo “Os canhões de Navarone” à toa. Se bem que para a situação ficaria mais conveniente “Os doze condenados”. Mas ele teria vivido mais, sofrido menos, se tivesse continuado a jogar ovos toda vez que precisava implodir. Para o bem ou para o mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensou de novo na esquininha e teve vontade de acender um cigarro. Sorriu de novo ao lembrar de Paulinho. Sempre os dois, na esquininha. Fumando de madrugada, porque o hábito ainda era segredo de polichinelo para seus pais e os outros moradores da rua. O gosto daquele Hollywood que os deixava tontos, mas com um prazer diferente, o sabor indescritível de fumaça que só os fumantes conhecem. Nenhum Hollywood repetiria jamais aquele gosto. Mas que bom que tinha existido. Ali, entre uma tragada e outra, combinavam estratégias para inscrever o time no campeonato. Mil escalações foram cogitadas, uniformes das mais variadas cores e tipos rechearam o imaginário. No fim, claro, o uniforme era o velho de guerra emprestado de um time que viveu suas glórias duas décadas atrás. A escalação, feita ao mais organizado estilo cata-cata, redundava em fracassos retumbantes, empates heróicos, vitórias sangrentas. Nunca foram campeões. Mas que bom que tivesse havido campeonatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se de que o pedacinho de varanda onde sentavam, encostados na grade, pertencia à casa de dona Leonor. Um mistério da humanidade o fato de dona Leonor nunca ter chamado a polícia ou jogado um balde d’água naquele bando de garotos desocupados que passavam parte das noites acampados nas bordas de sua varanda e embaixo de sua janela. Será que ele tinha isolamento acústico. Ou não via a novela das oito? Jamais saberia. Nunca entrara na casa de dona Leonor. Zero em perspectiva histórica. E pensar que ali, provavelmente, decidira ser jornalista. As histórias que lhe pareceram incríveis na época e que mesmo hoje dariam um bom conto. O mítico negão Qualhada, exímio fabricante de pipas e torturador de garotos da vizinhança nas horas vagas. Fosse Qualhada da idade que narravam as lendas e tivesse ele realmente cometido metade das atrocidades que lhe foram atribuídas, entraria no Guiness. “Psicopata em tempo integral” seria o verbete. Ali soubera da história real dos Catorze, um grupo de arrombadores do Turfe. Exatamente catorze. Bandidos hábeis, os melhores ladrões de casa já organizados em bando. Caçados e mortos um a um, eram substituídos. Duas gerações dos Catorze até o bando perder a força. Mas, talvez até para virar lenda, todos morreram cedo. Que garoto não gostaria de fazer mil perguntas a um dos Catorze? Paulinho dizia que conhecia um ladrão que tinha conhecido alguém que fora primo de dois dos Cartoze. Foi o mais perto que chegaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu andando em direção à esquininha e quando chegou ficou lá, ficou só parado. Teve vontade de sentar na pontinha da varanda, mas teve a impressão da borda ser muito curta. Ou ele teria crescido? Espantou o pensamento, até porque se sentiria ridículo sentado sozinho na rua, mas lembrou que fizera isso várias vezes. A esquininha parecia um vasto cenário de programa de variedades. Ali, emocionado, aos 14 anos, achara que sabia o que Fernando Sabino queria dizer com “fazer da queda um passo de dança, da procura um encontro”. Ali também trocara informações com Paulinho, Evandro e Ulisses sobre as tímidas experiências sexuais: “peguei no peitinho, ela deixou por uns dois minutos”. Ali também se revoltara ao lado dos amigos ao saber da morte de Abobrinha. Engraçada a proximidade ingênua que tinham com o mundo crime. Ou talvez o mundo do crime fosse mais ingênuo. Abobrinha, bem mais velho, batia uma bola com eles às vezes. Sempre na moral, com boas piadas, histórias engraçadas. Só não falava da profissão. Era ladrão de toca-fitas. Morreu numa tocaia, oito horas da noite. Ninguém soube por que. Ou quem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu que a tarde caía e teve vontade de sentar no meio-fio. Driblou o receio e sentou. Pareceu não chamar a atenção do pequeno grupo de garotos que chegara até a esquininha e começara a combinar um mini-torneio. Três times. Lembrou que no seu tempo, as peladas ali sempre começavam mais tarde. Sob a luz do poste, era o melhor estádio do mundo para um campeonato de gol pequeno. Traves de madeira, times organizados e nem o gramado do Maracanã substituiria o piso macio dos paralelepípedos que arrancavam tampos dos dedões do pé. Principalmente porque o jogo era duro. Quase riu alto quando lembrou de Duda. Violento e orgulhoso da fama de mau, Duda, diziam, bateria até na mãe se ela avançasse pela ponta direita. Pelo menos no irmão ele batia. Éramos testemunhas. Nosso estádio não tinha lateral, pois havia um muro em cada lado da rua, claro. Num dos lados morava um médico legista. Contavam histórias terríveis sobre ele. E para confirmar a antipatia, tinha um muro chapiscado de cimento. Perfeito para arrancar uns centímetros de pele quando caíamos nos arrastando nele por causa de uma jogada mais dura. Numa dessas, Evandro dominou a bola coladinha ao muro. Denis, a menos de dois metros, veio com sede de sangue e mandou o pé para a dividida. Evandro puxou a bola e durante muito anos sempre houve quem garantisse que o pé de Denis ficou colado no cimento do chapisco. Enquanto lembrava, a bola veio em sua direção. Passou pertinho, mas ele não tentou dominar. Um garoto veio, passou ao seu lado devagar e pegou a bola para continuar a pelada. Saiu fazendo embaixadinhas e pareceu não notá-lo. Ele reparou bem nos garotos e se deu conta de que já não conhecia nenhum. Talvez aquele magrinho, com a camisa do Botafogo. Devia ser, meu Deus!, bisneto de dona Leonor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anoiteceu e ele, sentado sozinho na esquininha, lembrou-se das noites parte solitárias passadas ali. Um alívio para a rua, quando o bando não estava. Mas, para desespero dos velhos ranzinzas e afins, eles iam chegando um a um. Como corvos. Recordou as noites de histórias de fantasmas e riu da ironia. Quando estavam todos juntos, eram terríveis. Certa vez, jogando ali, na esquininha, um grosso deu um chutão na bola, que explodiu no paredão da casa de Salim e foi parar, por cima da grade alta, na varanda da casa da mulher que tinha cinco cachorros. Ninguém tinha coragem de pular. O jeito foi tocar a campainha e pedir a bola. Ela cometeu o erro de dizer que não ia devolver. Houvesse uma bola reserva e não teria havido guerra, em razão do compromisso mais importante que era a pelada. Mas, na falta de bola reserva, convocou-se o conselho de guerra, que deliberou ali na esquininha e resolveu atacar. Ao suprimento inesgotável de pedregulhos, juntou-se uma inesperada verba de um dos adultos que tinham simpatia por eles. Devidamente aplicados os fundos na compra de rojões de São João, começou o ataque. Durou duas horas. Yasser Arafat teria ficado orgulhoso daquela intifada em solo tão distante da Palestina. Ao fim do cerco, a reivindicação foi atendida. Infelizmente, como toda guerra, aquela também deixou baixas. O papagaio, que não foi socorrido a tempo pela mulher, mais preocupada em guardar seus cinco cães traumatizados, acabou morto, violentamente atingido por um rojão. Foram caçados pelo marido da mulher, quando chegou, mas conseguiram escapar. Naquele tempo parecia que ninguém morria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorriu de novo, se dando conta de que a vontade de fumar havia passado. Por algum motivo irracional, sentiu que os cigarros já fumados nunca passariam. Como as peladas, as histórias. Simplesmente estariam ali, na esquininha, sem que ninguém precisasse lembrar. Teve a impressão, num relance, de ver o pai passando pela esquininha, como fizera centenas de vezes, a pasta de contador, o andar apressado, os sapatos gastos. Por um instante, sentiu que a qualquer momento poderia voltar à velha casa para jantar com os pais e por isso não teve pressa. Sorriu como se já soubesse, quando, um a um, Paulinho, Ulisses, Evandro, Duda, chegavam e sentavam, sorrindo, em silêncio. Simplesmente ficaram todos ali, sentados, invisíveis aos novos moradores que voltavam do trabalho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-111593865425903080?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/111593865425903080/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=111593865425903080&amp;isPopup=true' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111593865425903080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111593865425903080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2005/05/esquina-da-saudade.html' title='A esquina da saudade'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-111427830167783525</id><published>2005-04-23T10:44:00.000-07:00</published><updated>2005-04-23T11:22:09.853-07:00</updated><title type='text'>A Lapa é pop</title><content type='html'>&lt;em&gt;Mais boêmia rua da Lapa, Joaquim Silva reúne esdrúxulos episódios numa espécie de carnaval underground&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reduto da boemia carioca, a Lapa tem nos finais de semana um certeiro ponto de encontro de pessoas transadas e alternativas: a rua Joaquim Silva, depois de interferida pelo prefeito César Maia às vésperas das eleições municipais, volta às suas melhores noites concentrando o público que se aglomera entre o Circo Voador e as outras opções da redondeza. A rua, tomada por gente, reúne todo o tipo de pessoa, classe, raça, credo; como num carnaval, cuja fantasia predominante é o antiestilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca a Joaquim Silva esteve tão cheia desde a áurea época pré-César Maia, quando o prefeito caçou o alvará de vários estabelecimentos. Hoje, novamente, os bares tocam desde o hip-hop ao samba tradicional. A única regra parece ser não ouvir o que é possível ser conferido nas rádios tradicionais. Isso, claro, quando as músicas não são caladas pelo batuque de baterias de maracatu, por exemplo, que abrem espaço na multidão como uma típica banda de carnaval. Por toda essa intensa movimentação, a clássica casa de shows Semente agora só abre às quintas-feiras, com apresentações instrumentais de José Paulo Becker e convidados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E novos bares continuam surgindo e incrementando a diversidade de estilos do local. A mais nova opção é a boate Lapa Night Club, inserida exatamente em frente à Joaquim Silva, usando a arquitetura dos Arcos como uma espécie de Portal. Num ambiente formigando assim, é de se esperar que os mais esdrúxulos acontecimentos sejam possíveis. Como o ambulante que vende cerveja e usa um tamborim como ferramenta: a cada produto vendido, um tem como destino o organismo do próprio vendedor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de receber estrangeiros e públicos de todas as classes sociais, por vezes o local choca até os mais ferrenhos freqüentadores: botequim pé-sujo é uma coisa; mas tosco que é tosco mesmo tem até cachorro morto dentro do banheiro, para a completa ojeriza dos presentes. Já essa foi um cliente assíduo que contou: dois guris, com menos de dez anos, estavam no banheiro do mesmo boteco. Ao tentar entrar ouviu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sujou! Sujou!&lt;br /&gt;O outro guri logo surgiu, intercalando:&lt;br /&gt;- Qualé cara, usa o banheiro aí...&lt;br /&gt;Depois de fazer suas necessidades, o cliente assíduo passou pelo balcão e escutou um dos moleques falando sobre ele com o dono do bar:&lt;br /&gt;- Aí Seu Francisco, ele quer uma coca (pausa para o silêncio constrangedor). Pega Seu Francisco, ele vai comprar uma Coca-cola pra gente...&lt;br /&gt;Detalhe: isso aconteceu um dia antes do cachorro aparecer morto dentro do banheiro, junto de uma nova grade na única janela existente e de um cadeado na porta de acesso à parte reservada do banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ponto culminante, contudo, é mesmo a Escadaria de Santa Theresa, cuja extremidade desencadeia na famigerada Joaquim Silva. Antigo ponto de encontro de amigos, hoje seus primeiros degraus têm a presença constante de uma viatura policial fazendo girar ininterruptamente seu sinal luminoso. Era apenas o que faltava: pôs-se, então, uma caixa de som no local tocando música eletrônica, casando perfeitamente com as luzes dos policiais, como uma boate em concordância com o poder público. Sendo que, com menos de 15 passos rumo aos altos da escadaria, os freqüentadores do local continuam exercendo muito tranqüilamente suas atividades, sem o menor constrangimento. Os policiais até entram no clima, cantarolando com perfeição as letras estrangeiras gritadas por uma rouca caixa de som. Há até mesmo um locutor oficial. Lá pelas 4h ele avisa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aí galera, quem quiser fumar sobe logo, estamos indo embora!&lt;br /&gt;Na Escadaria, enquanto a neblina avança na noite, um casal segurando cestas passa gritando:&lt;br /&gt;- Anti-larica! Olha a anti-larica aí galera, apenas um real!&lt;br /&gt;Feliz idéia. Teriam feito MBA em Marketing?&lt;br /&gt;- Não, apenas alguma pesquisa de campo, respondem os empreendedores. Na compra de suas esfirras, o cliente ainda leva um guardanapo de brinde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, pessoas sorridentes passeiam contemplando – apesar da irritação nos olhos – aquela arte imensa e ascendente (ou descendente, dependendo do ponto de vista). Um grupo de amigos confraterniza-se numa roda, até que de repente chega um rapaz perdido na noite, puxando papo com uma garota que puxava um cigarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oi..., disse.&lt;br /&gt;- Oi. Senta aí, ela respondeu.&lt;br /&gt;O minuto seguinte era marcado por uma ligeira troca de cheiros e pelo soar de bocas tribalistas. Línguas, pescoços, transpirações. Pequena pausa:&lt;br /&gt;- Roberto.&lt;br /&gt;- Vanessa.&lt;br /&gt;Retorno aos movimentos anteriores. Nova pausa:&lt;br /&gt;- A Lua está linda hoje...&lt;br /&gt;- É verdade..., ele responde, fascinado, junto com ela, pela luz do poste que iluminava aquele mais novo trabalho do cupido pós-moderno. Em seguida saem cambaleantes em direção à vizinhança de outros casais escorados num muro próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E definitivamente toda ficção parece ser possível naquele pedaço do Rio de Janeiro. Porém, para a incredibilidade geral da nação lapense, uma hippie resolveu ser fiel ao estereótipo: levantou ligeiramente sua longa saia e, sem a menor cerimônia, urinou no meio da multidão. Em seguida ela riu, desenfreadamente, como quem achou aquilo tudo muito bonito. Uma realidade torpe, turva, mas que, afinal, não poderia ser diferente em se tratando da mais movimentada rua de um dos mais boêmios bairros do Brasil.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-111427830167783525?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/111427830167783525/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=111427830167783525&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111427830167783525'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111427830167783525'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2005/04/lapa-pop.html' title='A Lapa é pop'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-111402221858065231</id><published>2005-04-19T04:35:00.000-07:00</published><updated>2005-04-20T11:36:58.583-07:00</updated><title type='text'>Um Maracanã de dúvidas</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Estádio da Portuguesa, onde Flamengo deveria estrear no Brasileiro, preocupa moradores e instiga comerciantes&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Enquanto o Campeonato Brasileiro começa no próximo final de semana, o implante que Botafogo e Flamengo fazem no estádio da Portuguesa, na Ilha do Governador – onde o rubro-negro deveria estrear –, continua preocupando torcedores e moradores da região. Em obras desde o dia 23 de março e com previsão de encerramento para a próxima sexta-feira, véspera do campeonato, a Arena Petrobras, como será chamada, é cercada por uma escola de ensino fundamental, condomínios residenciais e bares de limitada infra-estrutura, tudo isso para atender às expectativas de até 30 mil torcedores, um público seis vezes maior do que aquele antes acolhido no bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que poderá se tornar a maior preocupação das autoridades é a presença da Escola Estadual Matildes de Jesus Quadrado, que funciona de segunda a sexta, das 18h às 22h –horário de alguns jogos do campeonato e localizada na rua do estádio, coagida entre quiosques. “À tarde funciona nesse espaço a Escola Municipal Gurgel de Amaral, com crianças de 10, 15 anos. À noite é que vira escola de ensino fundamental, e aí tem pessoas adultas já, mas também muitos jovens de 17, 18 anos que trabalham durante o dia e vêm estudar no período noturno”, explicou a servente Norman Lara, de 45 anos. Perguntada se o estádio poderá comprometer a segurança dos alunos, ela relutou. “Não posso dizer... trabalho aqui só durante a tarde. De repente não vai haver aula durante os jogos, não sei”, disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impossível prever se o som das sirenes dos automóveis que correm pela Linha Vermelha será abafado pelos gritos da torcida do Flamengo e Botafogo rumo à Arena Petrobras. Se qualquer acidente acontecer, o hospital mais próximo, Paulino Werneck, fica a cerca de 15 minutos de carro, no bairro da Cacuia. Já na ocasião do lançamento oficial da parceria entre os dois clubes e a Portuguesa da Ilha, o ex-governador Anthony Garotinho teria admitido adiar em 15 dias o início da reforma no Maracanã. Se os adiamentos prosseguirem, Flamengo e Corinthians, as duas maiores torcidas do Brasil, poderão desembarcar na Ilha dia 25 de novembro. E, se tudo correr perfeitamente, clássicos como Fla-Flu deverão acontecer no estádio recém-construído, no caso, dia 29 de maio, uma quarta-feira, dia letivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda que as obras terminem no tempo previsto, até o final desta semana, o Flamengo não poderia estrear no próximo sábado (dia 23) já que o Estatuto do Torcedor determina uma semana de antecedência após o término das obras para que o estádio seja liberado pela Polícia Militar, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros. Mas muito pouco poderá fazer a aprovação do poder público pela descrença de quem já convivia com problemas no local. O aeroviário aposentado, Roberto Esteves, de 52 anos, afirma temer pelo futuro de seu bairro. “Meu filho veio a um show que aconteceu no estádio (no dia quatro de março, um festival com várias bandas de pagode), e disse que nunca mais voltaria, teve muita confusão, até tiro. Aqui do lado tem o Parque Royal que é bastante perigoso. Tem que haver policiamento, mas vamos ver. Se os problemas já aconteciam antes, agora que tudo vai se ampliar imagina-se que a violência também, né. Mesmo nessa obra não dá pra levar fé. Olhe as arquibancadas, montadas sobre campos de barro, não parecem agüentar. Não sei se sustentarão 30 mil pessoas pulando e gritando”, comentou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     &lt;strong&gt;       Comerciantes em expectativa e obras incertas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meta era que Flamengo e Botafogo jogassem, cada um, 18 partidas no estádio – agora 17, no caso. A nova entrada da Arena Petrobras, que terá 36 guichês de bilheteria, fica numa rua em frente a um grande muro de condomínio, tendo nas ruas adjacentes cerca de cinco quiosques e dois trailers para aliviar fomes repentinas. Os comerciantes, claro, têm grande expectativa com a possibilidade de atenderem seis vezes mais clientes – tendo por base a proporção da atual capacidade do estádio e a antiga, que era de cinco mil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cléber Vaz, de 55 anos, dono do quiosque que fica entre a antiga bilheteria – hoje, a entrada social do novo campo – e a capela (!) mantida anexada ao estádio, está animado com o possível aumento de negócio em seu quiosque, o mais estruturado das redondezas tendo até mesa de sinuca. “Eu sinceramente não vejo problema algum. Estou aqui há 20 anos, acho que vai ser bom pra região, vai ajudar a desenvolver. E é óbvio que o esquema de segurança que havia no Maracanã será passado para cá. Só não sei se as obras vão terminar a tempo”, disse, sem saber do prazo de uma semana do Estatuto do Torcedor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Flamengo e Cruzeiro já têm campo para estrear, no primeiro mando de campo do Botafogo, dia 1º de maio contra o Corinthians, o local ainda está indefinido. A Suderj confirmou o Maracanã como palco da primeira rodada do fim de semana. “Depois? Ninguém sabe...”, informou Márcia Cristina, atendente de telemarketing da Suderj. “Nessa semana tem o feriado né, tudo só deve ser decidido no decorrer da semana que vem”, completou. Com a interdição do Maracanã e da Arena Petrobras, a principal possibilidade é de que os jogos dos dois clubes sejam realizados no Estádio da Cidadania, em Volta Redonda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O investimento de R$ 5 milhões prevê reforma do gramado, dos vestiários, criação da área de aquecimento para os atletas, camarotes, alambrados, cobertura para roletas, instalação de câmeras, sistema de som e iluminação, novas cabines e salas de imprensa, posto médico e acessos exclusivos para deficientes físicos, além de novos bares e lanchonetes dentro do estádio. Até o inicio da semana, contudo, as arquibancadas ainda estavam sendo construídas, assim como o muro das bilheterias, o acabamento dos vestiários, e os refletores da área social ainda eram três lâmpadas penduradas por fios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Os trabalhadores da obra explicaram os motivos da demora na construção. “Acho que não vai dar tempo... mas vamos ver, estamos fazendo muitas horas extras. Aqui são várias firmas trabalhando ao mesmo tempo, então às vezes uma atrasa e tem que esperar pela outra, ou o que atrasa é o material de construção... é complicado”, disse um dos funcionários, pedindo para não se identificar e em seguida pergunta: “O campeonato já começa neste sábado com o Flamengo, né?”. Ao lado, ouvindo a conversa, o colega de trabalho indaga, assustado: “O Flamengo vai jogar aqui, é?”. “Você tá por fora, cara. Vai jogar só profissional mesmo, da Seleção. Aqui vai ser o novo Maracanã”, respondeu, enquanto o colega, espantado, fazia uma visão panorâmica daquele que será “o novo Maracanã” de Flamengo e Botafogo neste Campeonato Brasileiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-111402221858065231?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/111402221858065231/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=111402221858065231&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111402221858065231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111402221858065231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2005/04/um-maracan-de-dvidas_19.html' title='Um Maracanã de dúvidas'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-111327519563058774</id><published>2005-04-11T20:06:00.000-07:00</published><updated>2005-04-12T12:23:41.216-07:00</updated><title type='text'>Versos ambulantes</title><content type='html'>&lt;em&gt;Além de ponto temporário de vendedores, ônibus do Rio tornam-se também palco de artistas de rua&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Gostaria de pedir um minuto de sua atenção. Eu poderia estar roubando, quem sabe até matando, mas estou aqui lhe oferecendo a história de músicos que, sem oportunidade de trabalho e necessitando da moeda nossa de cada dia, invadem o espaço dos ônibus para tocar sua música, declamar sua poesia e passar o chapéu, concorrendo com as adversidades inerentes ao variado “público” de transporte público e, claro, competindo também com ambulantes que embarcam nos coletivos e regurgitam quaisquer palavras semelhantes às que iniciaram este parágrafo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Esperando o coletivo, tendo como bagagem apenas o violão, o músico de ônibus paga a passagem e, com a roleta como apoio, clama atenção: “Vou cantar algumas poesias minhas, espero que gostem. Quem não puder contribuir, fique à vontade para aplaudir”, disse o músico Jonnes, de 24 anos. Lutando pela confecção dos acordes contra o balanço do ônibus, ele declama seus versos sobre a paisagem do Rio sob o ponto de vista dos meninos do morro. Ao terminar, agradeceu a uma platéia inerte. Mas, afinal, não seria um local pouco apropriado por ter pessoas muitas vezes cansadas, voltando do trabalho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, até achei bacana. A princípio é estranho, você toma um susto, mas é interessante, distrai. Não aplaudi por timidez. Espero ver outras apresentações”, comentou Roberto Henrique, de 23 anos, atendente de telemarketing e, no momento, passageiro e platéia nas horas vagas. Apesar da receptividade, Jonnes confessa refletir se seria mesmo um local inadequado às apresentações. “Às vezes me questiono quanto a isso, mas o que falo nas minhas músicas, imagino que me dá o direito de incomodar, até porque são só três minutos. E vou te falar que quase sempre todos gostam, ou pelo menos não percebo quem não goste, mas as reações positivas são muito gratificantes, valem o risco”, contou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Inevitavelmente, porém, o fast-show acaba se tornando também uma espécie de teatro ao vivo, com situações constrangedoras criadas pela interação do público. “Já quase caí algumas vezes, mas o pior aconteceu certa vez quando, no meio de uma apresentação, uma senhora gritou bem alto que eu calasse a boca. Fiquei todo sem jeito, e acabou criando polêmica dentro do ônibus, pois quase mundo ficou contra ela. Nunca mais toquei naquela linha”, comentou, para em seguida lembrar-se de outra situação, essa, mais positiva. “Houve vezes em que o ônibus inteiro aplaudiu, pedindo pra eu cantar Raul Seixas. Maior astral”, contou o cantor, que chega a arrecadar até R$ 40,00 por dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            E foi tocando Raul que Joannes Jesus Silva – seu nome de batismo – começou a se inserir em palcos motorizados. Natural de Itaubaté, no interior de São Paulo, ele veio para o Rio estudar biologia e trabalhar, mas, após cinco meses, foi mandado embora do emprego, em agosto do ano passado, quando então passou a freqüentar o Largo da Carioca, tocar violão e passar o chapéu. Foi nessa ocasião em que conheceu um outro cantor, que já saíra das ruas e hoje, como ele, ganha a vida vagando de ponto em ponto pelos ônibus da Zona Sul da cidade, revelando assim que esta é apenas uma história de uma safra de novos músicos que buscam ambientes inusitados para mostrar suas composições, e, ao final, tal qual os ambulantes e a esta matéria, só resta agradecer a atenção dispensada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-111327519563058774?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/111327519563058774/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=111327519563058774&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111327519563058774'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111327519563058774'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2005/04/versos-ambulantes.html' title='Versos ambulantes'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-111230554950724619</id><published>2005-03-31T13:45:00.000-08:00</published><updated>2005-03-31T13:45:49.543-08:00</updated><title type='text'>O planeta de Damião Experiência</title><content type='html'>Aparente mendigo de Ipanema, obscuro cantor experimental tem popularidade crescente na Internet enquanto planeja lançar-se no rock pesado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;Camuflado entre garotas de Ipanema e moradores de rua, ninguém imagina que aquele senhor de 70 anos, maltrapilho e cheio de dreadlocks, é na verdade um cantor e compositor de música experimental com 34 discos gravados, citado por Nelson Motta e com uma legião de fãs no Rio, São Paulo e Recife - onde foi realizada uma festa-tributo a sua obra. Facilmente reconhecido pela turma underground, comerciantes e moradores de Ipanema, o homem que atende pelo nome de Damião Experiência vive num mundo só seu, o Planeta Lamma - de onde brotou um idioma próprio -, e deseja agora lançar uma nova banda, desta vez de rock pesado.&lt;br /&gt;Em seus primeiros discos, Damião tocou gaita e violão de uma a cinco cordas - além de um chocalho de tampinhas amarrado no braço do instrumento. Com o tempo, atingiu o ápice de seu requinte musical cantando junto de uma banda com guitarra, baixo e bateria. Sons distorcidos e frases às vezes em português, noutras no idioma criado por ele, o “lammês”, são uma constante em seus álbuns, muitos deles com letras improvisadas, inventadas na hora da gravação. Nunca tocou nas rádios - para o prazer dos fãs avessos a modismos -, já que algumas de suas canções são ora sexualmente explícitas, ora carentes de refrões e estruturas convencionais. Sozinho, gravou, prensou, embalou e vendeu pelas ruas de Ipanema todos os seus discos, hoje artigos raros em sebos de São Paulo e Rio. Com títulos inusitados como “Bar”, “Luz” e “Gás”, as músicas contêm versos como “eu gosto é de apanhar de mulher”, e “lugar de trabalhador é na prisão”, delineados por uma mistura de psicodelia, blues, folk e baião, com guitarras e letras muitas vezes enigmáticas.&lt;br /&gt;A última apresentação de Damião Experiência - também intitulado em seus próprios discos como Daminhão Experyença, Damião Experiença, Daimeão Experiência e afins - aconteceu no Ballroom em dezembro de 2000, após ser descoberto pelo fotógrafo e DJ Maurício Valladares, um dos mentores da histórica rádio Fluminense FM, a “Maldita” que apresentou ao Brasil boa parte do rock nacional que surgia nos anos 80. Damião chegou ao Ballroom com seu violão, cuidadosamente amarrado num saco de lixo, e tocou algumas de suas canções para um público extasiado, como os cantores Toni Platão e Fausto Fawcett. “Estava meio adoentado...”, lamentou Damião, temendo (em vão) uma platéia decepcionada. Sua estréia na imprensa teria sido em 1977, numa coluna de Nelson Motta no extinto Jornal de Música e Som, em que descrevia o som de Damião como “uma transação intergaláctica que engloba guitarra de uma corda só, gritos lancinantes e estratosféricos misturados a letras de um planeta que só ele sabe o nome”. Hoje, cerca de 15 bandas são escancaradamente influenciadas por Damião, segundo seu site oficial, o Portão do Damião, construído por fãs membros de uma banda de rock de São Paulo.&lt;br /&gt;A Internet tem se revelado um grande veículo de propagação da obra damiônica. No Orkut, o site de relacionamentos, a comunidade feita em homenagem ao cantor conta com mais de 200 participantes. A principal presença na Internet, porém, é mesmo o Portão do Damião, catalogando boa parte da discografia que nem o cantor tem. Na mídia impressa, Damião sequer imagina (ou se lembra) que já se tornou pauta de revistas de música como Outra Coisa, ou da Folha Informática, do jornal Folha de São Paulo. Do seu exílio no Planeta Lamma, fica ainda mais difícil acreditar que em Recife uma festa foi feita em sua homenagem. O tributo foi até noticiado pelo Jornal do Commercio, de Recife, no dia 11 de setembro de 2004, data do evento que contou com audição de boa parte da discografia do cantor, exposição de fotos, entrevistas, livro, site, idéias e pensamentos damiônicos. “É sério isso mesmo? Nem fiquei sabendo... quer dizer que estão valorizando meu trabalho antes de eu morrer?! Mas como essa turma gosta do meu som, se não entendem nada do que eu digo? É loucura...”, surpreendeu-se, enquanto os fãs, por sua vez, garantem realmente existir algum nexo no dialeto.&lt;br /&gt;Os responsáveis pelo site afirmam que Damião possui fãs até no “Japão, Estados Unidos, Rússia, Finlândia e Piracicaba”, enquanto o cantor garante já ter morado e se apresentado em Cuba e Trinidad Tobago. No Rio, a valorização do maluco-beleza é tímida, apesar de ser possível encontrá-lo diariamente pelas ruas de Ipanema, onde mantém um apartamento próximo ao Morro Cantagalo. “É só um depósito onde eu guardo as coisas que coleciono. Eu moro no Recreio”, avisou. Seria uma desculpa para conter a peregrinação dos fãs? “Eu moro no Recreio. Não tá vendo que não dá pra ficar aqui?”, responde, irritado. Entrar em seu apartamento em Ipanema é atravessar um portal rumo ao Planeta Lamma: caminha-se por pilastras construídas com as mais diversas bugigangas, sapatos velhos, lençóis, óculos, até atravessar corredores formados por todo o tipo de objetos, sem nunca pisar no chão. Para chegar ao que seria sua cama, é preciso escalar pilhas de almofadas e se amontoar a um palmo do teto, no espaço em que, num apartamento convencional, seria destinado ao banheiro. “Gosto de colecionar coisas, mas a casa já está me expulsando”, justifica, enquanto procura pelos controles remotos do aparelho de DVD e da TV seminovos, depositados em meio à desordem predominante.&lt;br /&gt;Avesso a entrevistas, muito pouco se sabe a respeito de Damião. Segundo contou oficialmente numa autobiografia lançada junto de um de seus discos, ele nasceu Damião Ferreira da Cruz, em Portão, interior da Bahia. Cansado da violência do pai, fugiu de casa e foi para o Rio aos 13 anos. Desde então, morou com garotas de programa - e foi cafetão de algumas delas -, entrou para a Marinha, foi preso por deserção, voltou à Marinha onde trabalhou como operador de radar até sofrer um acidente, se aposentar, e dedicar seu tempo exclusivamente à fusão de ruído com música.&lt;br /&gt;Talvez sua mais controversa vertente seja a adoração por Adolf Hitler, cuja foto inclusive consta em algumas capas de seus discos. “Eu não sou nazista”, garante, para logo depois negar o que acabara de afirmar e se dizer judeu. Posteriormente, inicia um longo discurso sobre os descaminhos do governo Lula, “aquele avião luxuoso? É um absurdo!”, comenta, para em seguida, lucidamente, explicar os motivos de sua admiração disfarçada na revolta. “Você acha que vivemos numa democracia? Quando um policial me vê descendo um morro, me bate na hora, não tenho direito nenhum. Quem é o homem mais rejeitado do mundo? Não é Adolf Hitler?! Então, se é assim, eu gosto dele e pronto. Não vivemos numa democracia? Pois então que seja!”, explica, irritado.&lt;br /&gt;A forma como viabilizou suas experiências sonoras - cujo sobrenome artístico foi inspirado em “Jimmy Hendrix Experience” - é apenas mais um dos mistérios que rondam sua vida e obra, sendo a suspeita mais óbvia a pensão que recebe como aposentado da Marinha. O cantor, porém, afirma ter viabilizado seus primeiros discos através do dinheiro que obtinha como cafetão. Atualmente, Damião continua seu retiro pessoal, sempre compondo novas músicas - apesar de estar há 13 anos sem gravar -, e planejando  aventurar-se no rock pesado. O que falta para isso acontecer? “Nada”, responde, enquanto seu olhar se perde num ponto qualquer do apartamento - o Planeta Lamma, quem sabe. Ao ser perguntado sobre o seu misterioso mundo, Damião cantarola, em bom português: “É o planeta que eu criei, em que eu vivo e me sinto bem...”. Em seguida, embola a língua e declama naquilo que seria seu dialeto, sua invenção; e assim, em transe, submerge em seu próprio planeta, abnegado, sequer dando alguma importância à ode que é feita país afora em ovação a sua camuflada forma de viver.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-111230554950724619?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/111230554950724619/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=111230554950724619&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111230554950724619'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/111230554950724619'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2005/03/o-planeta-de-damio-experincia.html' title='O planeta de Damião Experiência'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10283661.post-110624642953872095</id><published>2005-01-20T10:39:00.000-08:00</published><updated>2005-01-20T15:34:03.056-08:00</updated><title type='text'>O bebê de Marcelle</title><content type='html'>- Seu Arcanjo, chegou mais uma encomenda. Marcelle Carvalho, lá de Campos dos Goytacazes, deu entrada em nossa Central de Nascimentos requisitando mais um cidadão brasileiro.&lt;br /&gt;- A MARCELLE?! Hum... isso não vai dar certo..., respondeu o Anjo Gabriel, já prevendo o desastre. Vou ter que acabar solicitando a ajuda do Nosso Senhor.&lt;br /&gt;- Mas Seu Arcanjo, Jesus não ta com um humor muito bom depois daquela tragédia lá na Ásia... o São Pedro então!, putz!, nem se fala. Uma trabalheira desgraçada pra cadastrar aquele povo todo.&lt;br /&gt;            - É, tem razão. Tinha que sobrar pra mim, puta-que-pariu!, disse o Arcanjo, irritado.&lt;br /&gt;            O Anjo Gabriel então pensou, pensou, observou o ritmo preguiçoso daquele anjo-estagiário e não precisou ponderar mais nada:&lt;br /&gt;            - Bom, como eu também não to lá dormindo em serviço, você cuida disso então. E rápido!&lt;br /&gt;            E o anjo-estagiário, coitado, já se desiludindo com o Céu, balbuciando impropérios pegou a ficha técnica de Marcelle e deu-se conta do maior problema de sua eternidade: beliscões nos filhos dos outros, puxões de orelha, safanões e todo o tipo de rabugência com seres entre um e 75 anos de idade. Sendo que, até os 10, a reincidência batia todos os recordes mundiais. Sem saída, ele foi até o Almoxarifado procurar a lista de anjinhos aptos à reencarnação. Depois de muita pesquisa selecionou três candidatos, tendo como critério aqueles que tiveram as últimas melhores encarnações, deduzindo que assim agüentariam melhor a vida miserável que lhes aguardava.&lt;br /&gt;            - Nem pensar!, respondeu logo de início o primeiro anjinho, revoltado. Se me encarnarem nela eu coloco o dedo na goela e não choro nem a caralho!&lt;br /&gt;            Os outros dois tiveram reações semelhantes: um ameaçou jogar-se dos braços do obstetra e o outro garantiu que nem esperaria nove meses: assim que seus braçinhos estivessem desenvolvidos, se enforcaria no cordão umbilical. O anjo-estagiário, porém, aproveitando a rara condição de superior naquela hierarquia, bateu o pé e decidiu que seria um dos três o próximo reencarnado, indubitavelmente. Tentaram ainda negociar, “eu nasço formiga!”, argumentou um deles, mas nada foi capaz de persuadir o anjo-estagiário.&lt;br /&gt;            Até que alguém lançou um argumento sagaz: “se ela sempre foi tão impiedosa com crianças, nós tínhamos que fazer um requerimento ao pessoal lá debaixo...”. Aquilo não constava nos autos. A Terra já estava com capetinhas demais, não precisava de mais um. E analisando bem sua ficha técnica, até seria uma certa injustiça. Ou não.&lt;br /&gt;            Aproveitando a madorna do Arcanjo Gabriel, o anjo-estagiário telefonou para o Inferno:&lt;br /&gt;            - Quero falar com o Belzebu!&lt;br /&gt;            - Da parte de quem, por favor?, indagou o secretário encapetado.&lt;br /&gt;            - Eu sou o anjo-estagiário da Central de Nascimentos.&lt;br /&gt;            - Besta-fera, tem um mané aqui querendo falar com você!&lt;br /&gt;            O Demo pegou o telefone:&lt;br /&gt;            - Pois não?&lt;br /&gt;            - Desculpe incomodá-lo senhor, mas é que eu to com um problema muito sério. A Marcelle Carvalho nos fez uma encomenda, mas, sabe como é, estou tendo uma certa dificuldade em encontrar candidatos... selecionei três anjinhos, mas eles estão se estapeando aqui.&lt;br /&gt;            - Ah, a querida Marcelle! Como não?, claro que a ajudarei! Quais características você procura?&lt;br /&gt;            - Não sei, o que você tem de melhor aí?&lt;br /&gt;            - Ô, meu filho, aqui é o Inferno esqueceu?&lt;br /&gt;            - É, ta, mas de repente tem algo de menos pior...&lt;br /&gt;            - Confie em mim, tenho o Coisinha-ruim certo pra você.&lt;br /&gt;            Dentro de poucos minutos o capetinha chegou ao céu. Trajando asinhas feitas com arame farpado e uma auréola de fio dental, ele furou a fila de 400 mil asiáticos, bolinou o São Pedro, chutou o portão do Céu e entrou, de penetra, dono do pedaço. “Se soubesse que era tão fácil...”, pensou o trombadinha. O anjo-estagiário chegou logo, explicando que se tratava de qualificação de mão-de-obra lá da Central, um curso-relâmpago para explicar aos futuros encarnados o que lhes aconteceria se não tivessem uma vida justa.&lt;br /&gt;            - Bom, segundo nosso contrato, você terá hospedagem gratuita no Céu em sua próxima vinda aqui, explicou finalmente.&lt;br /&gt;            - Quer dizer que eu vou poder fazer o que quiser da minha vida que não serei punido?!, perguntou o capetinha, entusiasmado.&lt;br /&gt;            - É, mais ou menos. Não se esqueça que você será filho da Marcelle. Essa cortesia que estou oferecendo é pela sua boa ação em aceitar o desafio.&lt;br /&gt;            O capetinha mal ouviu a conclusão daquela frase. “Viva!!!”, gritou, fazendo ecoar por todo o universo. Os três anjinhos, vendo aquilo, até se arrependeram:&lt;br /&gt;- Ei, peraí! E nós, você não explicou isso pra gente!”.&lt;br /&gt;- Vocês têm é que me agradecer por não mandar vocês pra Casa do Caralho! Calados!, gritou o anjo-estagiário, saboreando o momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quarenta anos depois, Marcelle Carvalho chegou ao Céu. Passou direto pelo Purgatório, invadiu o Salão Nobre e caminhou por um tapete vermelho sob confetes, gritos entusiasmados e pedidos de autógrafos. Foi recepcionada por Jesus Cristo em pessoa! Ao Seu lado esquerdo, cabisbaixo, estava o anjo-estagiário; do outro, o Arcanjo Gabriel, que na primeira oportunidade, com toda reverência, foi logo lhe dizendo:&lt;br /&gt;- Primeiramente, me desculpe. Foi um lapso de minha parte permitir que aquele incompetente ficasse responsável por uma decisão tão difíc... quer dizer, tão... é, como direi, tão importante...&lt;br /&gt;- Que decisão?, perguntou Marcelle, lesada, sem saber o que acontecia.&lt;br /&gt;- Ela não sabe..., cochichou baixinho o anjo-estagiário, sendo fulminado pelo olhar do Arcanjo.&lt;br /&gt;- Bem, é que tivemos um probleminha no seu requerimento e acabamos lhe enviando um ser, digamos, menos evoluído espiritualmente. Mas você o converteu de forma espantosa, nem todos têm a honra de ser recepcionado pessoalmente pelo próprio Jesus Cristo! Nem Ele imaginava que aquele trombadinha seria hoje candidato a Papa!&lt;br /&gt;- O Belzebu, coitado, está numa depressão horrível!, completou São Pedro, apreensivo, observando a cena à distância. E Marcelle, inocente, apenas comentou:&lt;br /&gt;- Ah, é só isso?! Mas foi tão fácil lidar com ele...&lt;br /&gt;Jesus esbugalhou os olhos. E ela então continuou caminhando, abrindo espaço entre anjos estupefatos enquanto um silêncio estrondoso permitia ouvir até o som de seus passos.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10283661-110624642953872095?l=campodeconcentracao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/feeds/110624642953872095/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10283661&amp;postID=110624642953872095&amp;isPopup=true' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/110624642953872095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10283661/posts/default/110624642953872095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://campodeconcentracao.blogspot.com/2005/01/o-beb-de-marcelle.html' title='O bebê de Marcelle'/><author><name>Felipe Sáles</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02214442545155998599</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
